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Médica denuncia agressão em hospital de Pelotas: 'Quero justiça e segurança para trabalhar'

Médica denuncia agressão de marido de paciente em hospital de Pelotas — Foto: Arquivo Pessoal
A médica Scilla Lazzarotto, de 46 anos, denunciou o marido de uma paciente por agressão, na sexta-feira (29), enquanto realizava um parto no Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Sul do estado. Ela conta que estava fazendo o atendimento da mulher quando foi surpreendida com chutes e socos.

Scilla registrou um boletim de ocorrência. A Polícia Civil informou que a investigação seguirá com a titular da Delegacia da Mulher, Márcia Chiviacowsky, nesta segunda (1º). O homem fugiu do local e não havia sido localizado.

"Eu estou em estado de choque. O que mais amo é obstetrícia", diz Scilla. "Só isso que quero: justiça e segurança pra trabalhar."

A obstetra e ginecologista relata que a paciente internou durante a madrugada, entre 2h30 e 3h, e a expectativa era fazer um parto normal. Quando ela e o colega que estavam no plantão chegaram, por volta das 7h, havia ainda uma cesárea e outros três partos normais programados.

O médico que estava trabalhando com Scilla fez o primeiro atendimento à gestante, e o homem já havia se demonstrado agressivo.

"Ele disse que estava muito nervoso e perdendo o controle. E meu colega pediu que ele se acalmasse, dizendo que já havia rompido a bolsa, que ela estava com contrações e estava tudo bem", conta Scilla.

O outro médico foi a uma sala realizar a cesariana, enquanto Scilla permaneceu examinando as demais mulheres. Como não havia urgência, conforme a obstetra, ela deixou uma colega monitorando as pacientes e foi repassar os casos com os médicos residentes, já que ela é a preceptora do setor.

Porém, em torno de 30 minutos depois, Scilla conta que uma enfermeira procurou-a reclamando que o homem estava gritando de modo bastante agressivo na sala de partos.

"Tenho 22 anos de obstetrícia, já fiz mais de 10 mil partos. Pedi calma para ele, falei que o filho estava para nascer, que dava para ver os cabelinhos. Só esperava que descesse mais um pouco", descreve.

Scilla afirma que colocou a mãe em posição de quatro apoios e ficou monitorando o coração do bebê. Como ela reclamava de dores, trocou-a de posição, e o marido sentou-se atrás. A médica disse que poderiam esperar por até 3h, mas que em 1h reexaminaria a paciente e realizaria o parto.

No entanto, devido às dores relatadas pela mulher, ela sugeriu falar com o anestesista e fazer uma cesárea. Neste momento, segundo Scilla, o homem recomeçou a ofendê-la.

"Começou a me chamar de nomes, que eu era uma torturadora, que tinha deixado ela sofrer. Eu disse que tinha que priorizar o atendimento à mulher, que ele não poderia gritar daquela forma. Quando estava saindo da sala, ele botou a mão na capanga e disse: 'Eu tenho um 38 e um 42, vou te dar um tiro e vou te matar. Tu não vai sair viva daqui'", diz Scilla.

Ela conta que ficou apavorada, mas ignorou a ameaça e deixou o local para providenciar o atendimento à esposa e ao filho dele.

"Quando tava saindo, ele deu uma voadora nas costas. Voei 1m em cima de uma pia de ferro, cortei o braço, ele pegou meus cabelos e deu uns cinco socos na nuca, que desmaiei. Bati com a cabeça no marco da porta", descreve Scilla.

Ela diz que ficou desacordada por alguns instantes e só soube mais tarde que alguns residentes tentaram segurá-lo. Enquanto ela era levada para atendimento em outra sala, o homem fez uma ligação e fugiu do local.

"Tem a lei de que o acompanhante fique na sala, mas tem que ter uma preparação, tanto pra mulher saber que vai ter dor, como para o acompanhante saber como é que funciona. Senão, vai achar que aquela dor é porque a gente está judiando da pessoa", completa.

De acordo com a médica, outro colega assumiu o parto, e tanto a mãe como a criança estão bem. O homem não foi localizado.

"Estou com medo. Enquanto não for preso, não vou sair de casa", relata. "Nunca tinha passado por uma ameaça. A gente trabalha com vidas. Mas nunca levei um tapa de uma paciente, de ninguém, nada. Ninguém tem o direito de bater em um profissional que estava em serviço. E ele ainda conseguiu bater em uma mulher. Estou chocada", acrescenta.

O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) condenou a agressão e promete tomar um conjunto de ações para buscar a punição ao agressor.

"Qualquer ato de violência é injustificado e qualquer violência contra profissionais de saúde é um ataque à sociedade. Denunciaremos isso, amplamente. Mas também precisamos agir para punir e prevenir", afirma, em nota assinada pelo presidente Marcelo Marsillac Matias e pelo diretor do Interior, Fernando Uberti Machado.

Já o Hospital Escola afirma que prestou o atendimento à funcionária e que proibiu a entrada do homem nas dependências do hospital. "Registramos nosso total apoio e solidariedade à médica agredida e a toda equipe. Estamos colaborando com as autoridades policiais e judiciárias", disse a UFPel, em nota.

Nota do Hospital Escola da UFPel
O Hospital Escola da UFPel vem a público lamentar e repudiar o fato ocorrido nas dependências da instituição no dia de ontem (29/05/2020), em que nossa profissional médica foi absurdamente agredida a chutes e socos pelo acompanhante de uma paciente gestante, internada para o nascimento de seu filho.

A profissional foi imediatamente atendida pela médica do trabalho do hospital e a brigada militar foi acionada e esteve presente no local. Foi registrado boletim de ocorrência e a proibição da entrada do agressor foi determinada pela direção do hospital.

Registramos nosso total apoio e solidariedade à médica agredida e a toda equipe. Estamos colaborando com as autoridades policiais e judiciárias.

Nota do Simers
O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) condena, de maneira veemente, a agressão sofrida por médica obstetra em plantão no Hospital Escola (HE), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), na última sexta-feira (29).

Qualquer ato de violência é injustificado e qualquer violência contra profissionais de saúde é um ataque à sociedade. Denunciaremos isso, amplamente. Mas também precisamos agir para punir e prevenir.

Nesse sentido, o Simers iniciará um conjunto de ações em diversas áreas envolvendo esse triste episódio para a Medicina gaúcha. Atuaremos forte na mídia, denunciando o fato ocorrido, a falta de condições de segurança aos médicos que trabalham na cidade e as graves condições de estrutura do sistema de saúde local que contribuem para cenas lamentáveis como essa.

Atuaremos juridicamente, para a punição exemplar do agressor e envolvendo todos os órgãos de segurança e fiscalização.

Também atuaremos politicamente, junto a gestores locais e estaduais, por mais segurança e por uma nova legislação, mais rígida contra quem agride quem trabalha pela saúde das pessoas.

Estaremos na próxima semana em Pelotas, para conversarmos com todos os médicos da cidade, ouvir suas realidades e incluí-los nesse grande movimento de defesa da Medicina.

Esse ataque não será tolerado.

Fonte: G1 RS

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