Previsão

Próximos três meses terão maior frequência de chuvas

Foto: Pixabay
Condições meteorológicas ocorridas em março de 2020
Em março, a situação da estiagem agravou-se no Rio Grande do Sul. As regiões do Nordeste e Norte registraram precipitações muito baixa, entre 2,1 e 25 mm, apenas (Figura 1 A). Por essa figura, nota-se que mais ou menos 80% do território gaúcho recebeu menos de 50 mm. Isso se reflete no mapa de anomalia de precipitação (Figura 1 B) em que todo o Estado esteve com precipitação abaixo da média climatológica. Os maiores déficits de precipitação ficaram entre -100 e -200 mm.

Conforme exposto nos boletins anteriores, esperava-se que, com o término do verão, as chuvas retornassem aos poucos ao Estado. No entanto, isso não ocorreu em março e também não ocorrerá em abril, visto que as chuvas têm ocorrido em baixos volumes e mal distribuídas.

Figura 1) Mapa da precipitação acumulada (A) e da anomalia da precipitação (B) durante o mês de março de 2020 em relação à média climatológica no RS. As escalas de cores indicam, em mm, o acumulado de precipitação (A) e a anomalia de precipitação (B), onde valores positivos (azul) indicam precipitação acima da média e valores negativos (laranja-vermelho) indicam precipitação abaixo da média. Fonte de dados: CPTEC/INMET.

Devido à falta de chuvas, o ar tende a ficar mais seco. Com isso, março teve elevada amplitude térmica, pois, as temperaturas mínimas do mês ficaram dentro da normal climatológica e as temperaturas máximas ficaram bem acima do normal em todas as regiões. As anomalias da temperatura máxima ficaram entre +1 e +2 °C na Zona Sul, entre +4 e +5 °C na Fronteira Oeste, Campanha e Região Central e superaram os +5 °C nas regiões de Porto Alegre, Teutônia e Rio Pardo.

Condições da radiação solar durante março de 2020
Março é o principal mês para a colheita do arroz no Estado para aquelas lavouras semeadas dentro da época recomendada. Para estes produtores, o tempo seco foi favorável. No entanto, algumas lavouras que foram semeadas em dezembro, devido ao excesso de chuvas da primavera, principalmente na região Central do RS, ainda estavam na fase reprodutiva. Para estas lavouras, o tempo seco de março de 2020 e, por consequência, com maior radiação solar, contribuiu para diminuir a redução da produtividade verificada com o atraso da época de semeadura.

O primeiro mapa (Figura 2 A) refere-se à normal climatológica para a radiação solar durante o mês de março, com as delimitações das seis regiões orizícolas do RS. Em março, os valores climatológicos da radiação solar já são bem inferiores quando comparados aos dos meses de dezembro e janeiro. No entanto, neste 1º decêndio de março de 2020, os valores médios estiveram próximos aos da climatologia de dezembro e janeiro. Neste decêndio (Figura 2 B), a radiação solar foi acima da média em todas as regiões orizícolas. No 2º decêndio (Figura 2 C), a radiação solar ficou dentro da normal climatológica na maioria das regiões arrozeiras, exceto na Zona Sul, onde ficou abaixo da normal. Já no 3º decêndio (Figura 2 D), a radiação solar ficou dentro da média na maior parte da Fronteira Oeste e Zona Sul, enquanto nas outras regiões ficou acima da normal climatológica. A média da radiação solar observada no mês de março de 2020, na Metade Sul do RS, foi de 20, 6 MJ m-2, com anomalia de +2 MJ m-2.

Figura 2) Normal climatológica (período 1981 a 2010) para a radiação solar (MJ/m2) no mês de março (A) e anomalia da radiação solar (MJ/m2) durante o 1° (B), o 2º (C) e o 3º decêndios de março de 2020, para o Estado do RS. Fonte de dados: INMET.

A safra 2019/2020 de arroz irrigado teve alguns percalços. Primeiro, por conta das chuvas excessivas no período de semeadura, depois com a falta de chuvas para a emergência em algumas lavouras e, agora no final, pelo fato de alguns produtores terem problemas de falta de água para irrigação. Porém, no que diz respeito à radiação solar, pode-se dizer que foi excepcional, devido à alta taxa de radiação solar ocorrida durante o período reprodutivo do arroz nas lavouras.

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas
As condições oceânicas e atmosféricas continuam neutras e com viés positivo (Figura 3), pois a anomalia da Temperatura da Superfície do Mar na região do Niño3.4 foi de +0,5 °C nos últimos quatro trimestres consecutivos móveis (OND, NDJ, DJF e JFM). Este sútil aquecimento no Oceano Pacífico poderá se reverter em períodos de chuvas mais frequentes a partir de maio. Porém, tudo são suposições, visto que esperávamos que as chuvas fossem retornar ainda em abril. Um fator que pode estar retardando a volta das chuvas, são as temperaturas das águas do Atlântico Sul (indicado pela seta), que estão com viés negativo nos dois últimos meses (fevereiro e março).

Figura 3) Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de março de 2020. Fonte: Adaptado de CPTEC. O retângulo central na imagem mostra a região do Niño3.4, a qual os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (índice que define eventos de El Niño e La Niña). Já o retângulo menor mostra a região Niño 1+2, que modula a qualidade, ou seja, a regularidade das chuvas no RS.

Muito tem se falado sobre a La Niña para a próxima safra (2020/2021). Mas, por enquanto, não há previsões conclusivas para a configuração do fenômeno. O que se tem de concreto, segundo as projeções do IRI (International Research Institute for Climate and Society), são 38% de chance de La Niña, 39% de chance de Neutralidade e 23% de chance de El Niño, para o trimestre novembro, dezembro e janeiro (2020/2021). Por isso, é importante o acompanhamento das previsões de clima neste momento. Lembrando que, estamos no outono e as previsões nesta época do ano têm menor índice de acerto.

Mas, ao analisar a temperatura das águas subsuperficiais, já se pode observar algumas mudanças. A Figura 4 apresenta dois mapas, distantes mais ou menos em um mês. É possível observar-se que o padrão mudou neste pequeno período. Ou seja, em meados de março a bolha de águas quentes estavam maior que agora, em abril. Logo, possivelmente, as águas na superfície do Oceano Pacífico iniciarão o processo de resfriamento nos próximos meses.

Como sabemos, leva tempo entre o início do resfriamento e a configuração de uma La Niña, sendo preciso monitorar como será a dinâmica da temperatura das águas daqui para frente.

Figura 4) Anomalia da temperatura subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico (°C) em relação à profundidade. Pêntadas significam média de cinco dias consecutivos, logo, o mapa (A) mostra a pêntada centrada no dia 04/04 e o mapa (B) mostra a pêntada centrada no dia 08/04 de 2020. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.

Por enquanto, o outono será sob Neutralidade climática, assim como o inverno. Com a neutralidade climática que predomina, é natural que as massas de ar frio cheguem ao RS mais cedo, quando comparado ao ano passado, como tem ocorrido em abril de 2020, quando já houve registro de geada nos pontos mais altos do Estado. Para maio, junho e julho é esperado que o frio se intensifique (normal para a época do ano), assim como a maior frequência de geadas. No entanto, os modelos mostram que, na média mensal, as anomalias serão positivas, isso quer dizer que as temperaturas deverão ficar acima da média climatológica para estes meses.

Previsão para a precipitação no trimestre maio, junho e julho de 2020
Nas últimas atualizações, o modelo CFSv2 (Climate Forecast System), da NOAA, tem sinalizado que o próximo trimestre (maio, junho e julho) deverá ter precipitação acima da normal climatológica.

Maio: as simulações mostram anomalias entre +10 e +50 mm. No entanto, o estado é de atenção, pois nas previsões diárias não aparecem chuvas muito consistentes, ou seja, as chuvas poderão ser concentradas em três ou quatro episódios.

Junho: as simulações estão mais consistentes e apontam para precipitações acima da média climatológica. As anomalias devem ficar entre +10 e +30 mm, em relação à normal climatológica.

Julho: as simulações têm mostrado que as chuvas deverão ficar entre +10 e +30 mm em relação à normal climatológica.

O modelo do CPPMET, da UFPel, indica que na Metade Sul do RS as chuvas deverão ficar dentro do normal nos meses de maio e junho. Assim, as normais climatológicas, variam de 110 a 165 mm, em maio, de 90 a 150 mm, em junho, e de 70 a 160 mm, em julho.

Com relação às chuvas, a situação ainda é muito delicada, devido à não regularização das mesmas. Houve muitas perdas nas culturas de sequeiro, assim como no setor de pecuária de leite. Agora, no outono, é o período da semeadura de pastagens e a falta de precipitações continua preocupando os produtores, pois correm o risco de não ter alimento para o gado.

A boa notícia é que, mesmo que não chova o suficiente para repor o déficit hídrico de todo o verão, agora durante a estação fria a evapotranspiração é menor, logo o pouco que chove deverá “ficar mais tempo no solo”, garantindo o desenvolvimento de pastagens e plantas de cobertura do solo.

Jossana Cera é meteorologista, doutora em Engenharia Agrícola pela UFSM e consultora do Irga.

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