Politica

Crescem as dúvidas sobre a estratégia do governo estadual no combate à Covid-19

Executivo prevê instalar a partir de 1º de maio um modelo novo de ‘distanciamento social controlado’

Foto: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini
A promessa do governo do Estado de instalar a partir de 1º de maio um novo modelo, o do ‘distanciamento social controlado’, como forma de enfrentar o coronavírus em solo gaúcho, não está, até o momento, diminuindo questionamentos de prefeitos. As dúvidas sobre os dados apresentados e a capacidade do governo em dar respostas com a rapidez necessária fazem crescer entre gestores municipais o entendimento de que passou o momento em que o Executivo gaúcho conseguiria manter o controle sobre a estratégia do distanciamento. O estopim para as objeções foi a mudança nas regras admitida pelo governo estadual na semana passada para as cidades da região Metropolitana da Serra, que inicialmente teriam mantidas as mesmas restrições existentes para a região Metropolitana de Porto Alegre.

Fatia significativa dos prefeitos questiona, por exemplo, se vai funcionar um dos pontos anunciados como parte do distanciamento controlado: o de que se uma determinada localidade apresentar uma disparada nos índices de infecção e atingir a capacidade de atendimento hospitalar, vai ter o nível de restrição ampliado. A dúvida toma por base o exemplo internacional. Via de regra, quem esperou por uma disparada de casos ou internações para apertar as restrições acabou com os sistemas em colapso.

Pesam sobre o novo modelo ainda incertezas sobre o quanto o termo controlado se adapta a uma realidade na qual o distanciamento seletivo (para pessoas acima de 60 anos e com fatores de risco) deixou de caber. Dos 869 casos confirmados oficialmente no RS na sexta-feira, a faixa etária entre 60 e 69 anos ocupava a terceira posição (147 casos). O maior número, 185, estava na faixa etária entre 30 e 39 anos. Em segundo lugar estava a faixa entre 40 e 49 anos, com 162 casos. E a faixa entre 20 e 29 anos registrava 104 casos.

“O Estado deu a largada com uma medida genérica que foi boa, mas depois não houve evolução técnica. Infelizmente, o que temos observado até aqui é que não apresentou ainda os recursos e mecanismos necessários. Acreditávamos que os estudos seriam mais científicos”, elenca o prefeito de Campo Bom, Luciano Orsi (PDT). Na semana passada, a prefeitura de Campo Bom ingressou com ação com pedido de liminar para invalidar o decreto do governo que flexibilizou as medidas restritivas em todo o Estado, menos para as cidades da região Metropolitana de Porto Alegre, e pediu permissão para reabertura do comércio no município. A administração de Orsi questionou os dados científicos e metodológicos apresentados pelo Executivo estadual para justificar a adoção de critérios diferentes. Na sexta-feira o Judiciário optou por conceder prazo de cinco dias para manifestação do governo estadual antes de tomar qualquer decisão. A cidade também é signatária do documento no qual 10 das 12 cidades que compõem a Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos solicitou ao governo a flexibilização.

Após Campo Bom ter registrado o primeiro caso do Estado; a prefeitura adquirir mil testes com recursos próprios; a associação ter adquirido outros dois mil, todas as amostras coletadas serem processadas pela Feevale, e os resultados dos exames estarem disponíveis depois de 24 horas, Orsi argumenta que a região tem dados científicos e ações que copiam referências internacionais para embasar sua solicitação. Campo Bom tem área de apenas 60 quilômetros quadrados, uma população de 66 mil habitantes, quatro casos confirmados e nenhum óbito. “Nós estamos de fato controlando. E entendemos que as medidas anunciadas pelo governo não estão conectadas aos dados reais. A pesquisa apresentada, por exemplo, não justificou, na minha modesta opinião, nem a manutenção do fechamento da região Metropolitana e nem a abertura de quase todo o Estado. Nossa cidade tem muito menos casos que Passo Fundo, Caxias do Sul ou Bagé.”

Também à frente de uma cidade da região Metropolitana, o prefeito de Esteio, Leonardo Pascoal (PP), não pretende questionar a gradação das medidas restritivas determinadas até 30 de abril. Mas está entre os gestores que se anteciparam em iniciativas que seguem modelos internacionais que apresentaram os melhores resultados até aqui. A prefeitura investiu R$ 400 mil na compra de cinco mil testes, sendo três mil moleculares e dois mil rápidos. Esteio, que tem uma população de 83,2 mil habitantes, está testando, mediante avaliação dos profissionais da saúde, todos os pacientes que procurarem atendimento com sintomas de síndrome gripal, independente da gravidade e de estarem ou não hospitalizados. “Sim, nossa estratégia é a testagem em massa. O que nos motivou a adotá-la foram os exemplos da Alemanha e da Coreia do Sul. Eles obtêm resultados melhores devido a sua capacidade de testar em massa a população”, afirma Pascoal.

Os dois mil testes rápidos serão utilizados para uma pesquisa em parceria com quatro universidades (UFCSPA, Ufrgs, Unisinos e Feevale) que envolve 41 pesquisadores. O levantamento pretende apontar a quantidade de pessoas expostas ao SARS-CoV-19 na cidade, estabelecer o sequenciamento genético do vírus e submeter os resultados a bancos de dados internacionais. Segundo o prefeito, a partir do mês de maio, além de acompanhar o decreto do governador, a administração decidirá as próximas ações após analisar a evolução do seu quadro de casos e avaliar tecnicamente a situação através de seu comitê municipal.

A preocupação de parte dos prefeitos está relacionada a basicamente três pontos:

Projeções 
Em 17 de março o Executivo gaúcho divulgou os primeiros estudos técnicos do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria do Planejamento com projeções de evolução do coronavírus no RS. Foram estabelecidas três possibilidades de cenários, a partir do número de casos: extremo (o pior possível), agressivo e moderado. Em 25 de março foi divulgado o primeiro Boletim Diário de Casos em Países Selecionados, Brasil e RS (o boletim passou a ser diário de fato em 3 de abril).

No boletim do dia 25, o governo projetou evoluções possíveis para 3 de abril, data em que se completavam 14 dias após a confirmação do 50º caso no Estado. O registro do 50º caso é usado como parâmetro para as medições. Na época, o governo apontou que o RS estaria em um cenário extremo se, até 3 de abril, o número de casos chegasse a 4.340.

No boletim de 12 de abril, os técnicos fizeram um alerta sobre a mudança no protocolo de testes ocorrida em 23 de março, que determinou a testagem apenas para mais graves e profissionais da saúde com sintomas. E assinalam que o número de testes seria determinante para identificar qual cenário (extremo, agressivo ou moderado) o RS de fato seguiria.

A partir de 13 de abril, foram suprimidas dos boletins projeções com números absolutos de casos e como se enquadrariam nos três cenários possíveis. Também deixou de ser usada a terminologia de extremo, agressivo e moderado.

Em 15 de abril, quando anunciou a flexibilização das medidas de distanciamento social em 95% do território, o governo divulgou dados do boletim já sem as projeções de cenários extremo, agressivo e moderado. E destacou que o RS seguia uma linha semelhante a do Japão e Singapura, dois países que apresentariam evolução moderada. Apesar de o Japão, na verdade, estar enfrentando um aumento repentino de casos e ter declarado emergência em Tóquio e outras seis regiões.

Na mesma cerimônia, o Executivo divulgou os resultados da pesquisa sorológica coordenada pela UFPel, intitulada Epicovid19. Uma das conclusões da pesquisa foi a de que, 14 dias antes de sua divulgação, ou seja, em 1º de abril, já existiam 5.650 pessoas infectadas no RS. Se estiver correta, a projeção coloca o Estado, já no início de abril, dentro de um cenário extremo de avanço da doença conforme os números que vinham sendo usados pela Seplag.

Testes
No final de março o governo do Estado anunciou a realização de uma pesquisa capaz de estimar, através da aplicação de testes rápidos, os percentuais de pessoas infectadas e de assintomáticas e de conhecer a velocidade da evolução do coronavírus no RS. O levantamento, a Epicovid19, é coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e, inicialmente, chegou a ser apontado como um “teste em massa”. Seus primeiros resultados foram divulgados na semana passada, após a conclusão de 4.169 testes (dois deles com resultado positivo). Os kits para a pesquisa vieram do Ministério da Saúde. Na prática, a pesquisa aplicará 18 mil testes no RS, que tem uma população de 11,3 milhões de habitantes, ou seja, testará 0,15% da população. Se for adotado o critério internacional que compara países estabelecendo a quantidade de testes feitos por milhão de habitantes, o levantamento gaúcho testará 1.592 pessoas a cada um milhão. Na Alemanha, de 20,6 mil por milhão.

Ainda em março, prefeituras de diferentes regiões passaram a tomar iniciativas de adquirir os insumos com investimentos próprios e fazer parcerias locais com universidades, hospitais e grupos de empresários para realizar testes e ter informações mais precisas sobre o avanço da doença em suas cidades. O Estado vem utilizando ou distribuindo às prefeituras os lotes de testes que são enviados pelo Ministério da Saúde (em abril o RS recebeu 48,9 mil kits no dia 3 e 37,7 mil no dia 15). Também vieram do ministério os kits para a pesquisa Epicovid19. Em 16 de abril, a assessoria de comunicação do governo informou que, até aquela data, haviam sido realizados no RS aproximadamente cinco mil testes RT-PCR. Até este domingo o dado consolidado sobre os números de testagens realizadas e o de amostras que aguardam na fila ainda não estava disponível no site do governo que traz as informações oficiais sobre o coronavírus. ( https://saude.rs.gov.br/coronavirus)

Em 24 de março o Executivo anunciou que, para além das remessas enviadas pelo Ministério da Saúde, iria adquirir, com recursos próprios, entre 50 mil e 100 mil testes moleculares (RT-PCR). Na sequência, informou que seriam 50 mil, e que as amostras seriam analisadas no laboratório do Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS), da Ufrgs. Mas, até agora, não há notícia da chegada dos kits. Em São Paulo, a aquisição direta de testes por parte do governo estadual se mostrou bem mais rápida. Em 2 de abril o governador João Dória (PSDB) anunciou a compra de 1,3 milhão de kits oriundos da Coreia do Sul. Metade deles (725 mil kits) chegou no dia 14. No último dia 17 Leite informou que a chegada de mais testes do Ministério da Saúde complementava a estratégia estadual, informou que a política de testes está estruturada no Estado e disse que o governo está fazendo todos os esforços para aumentar o número de exames. Mas ressalvou que o RS não terá condições de fazer uma testagem massiva na população.

Na primeira quinzena de abril a contratação, por parte do governo, de uma agropecuária de Pelotas para analisar amostras de testes moleculares, gerou forte reação entre laboratórios e entidades que representam profissionais da saúde e passou a ser investigada pela Promotoria de Defesa do Patrimônio Público do Ministério Público estadual. Na última sexta-feira, após a promotoria ingressar com ação solicitando a suspensão da execução do contrato, o governo anunciou que estava suspendendo a transação.

Monitoramento do distanciamento social 
Em 14 de abril o governador Eduardo Leite apresentou o funcionamento de uma ferramenta de geolocalização, utilizada para verificar aglomerações e disponibilizada pela empresa de tecnologia In Loco, de Pernambuco, que monitora dados de localização de dispositivos móveis e criou um Índice de Isolamento Social em função do coronavírus. Conforme os dados apresentados, no final de semana entre 20 e 22 de março o RS havia alcançado 70% de adesão ao distanciamento social. E, na segunda-feira após o feriado da Páscoa, essa adesão havia caído para 46,9%.

Na divulgação dos dados, contudo, não foram detalhados o número de aparelhos monitorados no RS, e nem os índices por cidade, indispensáveis para medir a real dimensão do distanciamento. Também não recebeu destaque o fato de que, no início de março, antes do coronavírus, já existia, naturalmente, um índice de aparelhos “parados”, variável conforme o dia. Em todo o Brasil, a In Loco monitora 60 milhões de aparelhos. No RS, conforme dados obtidos junto ao governo do Estado, a divulgação do índice levou em conta o monitoramento de 1,3 milhão de aparelhos. É sobre este número, e não sobre o total da população, de 11,3 milhões de habitantes, que os índices de distanciamento são válidos.

Um levantamento feito pelo físico Rafael Haag, da Uergs, a partir dos dados do Google Mobility disponibilizados pelo Google, apontou que, após as recomendações de distanciamento, a permanência dos gaúchos em suas casas aumentou apenas 18%. As informações incluem também dados de permanência em diferentes locais, como parques, estações de transporte e supermercados. O RS ainda não utiliza dados de operadoras de telefonia.


Fonte: Flávia Bemfica / Correio do Povo


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